sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A Morte No Artista

A configuração de um relâmpago, em ruptura

É nada mais que uma necessidade mecânica

De ligar a terra ao firmamento, rapidamente

Numa mínima fracção da coerência dinâmica

O tempo sofre uma explosão, trovão, tortura



E penso no seu brilho:



“Mesmo que me ignorem todos os defeitos

Ainda assim não estarei próximo de perfeito...”



E na maior irregularidade…



Perco anos embrenhado na sofisma, rochedo

Que tento talhar apenas com os dedos nus

Sem noção de que o céu, tão obviamente

Está vedado ao escultor dos poemas crus

Pois se escrevo é só por cisma, só por medo



De um dia encontrar:



“Aqui jaz uma Mente Obscura…

Que cegou e morreu, em busca de uma luz

Para dar mais brilho à sua Obscura Mente…”



Pois minhas palavras não cortam como clarão

Minhas ideias não iluminam olhos alheios

E o rochedo, será sempre a consciência, ou não

Que me pesa e me sufoca… mas, no fim…

Me dá razão!






terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Valete de espadas

Lançadas cartas sobre o verde da mesa, e
Em tom de tiros de bombarda, arma e morte
Uma-a-uma, tal como as balas, ditam a sorte
Ao lado do rei, na corte, está o mártir...
Cavaleiro, vingador magno!

Os motivos de procurar o passado, que
Encontro no acto de egoísta de partir
Fez de mim um bastardo quase poeta
Que nunca há-de atingir a ansiada meta
Lançada seta, ao peito...
Ou espada, rainha da vontade!

Pois sou protector, lenda, guerreiro, temor!
Quero crer que esta dor seja apenas metade,
Pois cortei em dois a fonte do meu amor...
...
O céu perdeu então...toda a cor...
...
Hoje eu sou como carta perdida
De um jogo acabado, na minha ausência...

Uma valete de Espadas marcado a ferro...

Que pediu para ser rejeitado...
No doloroso jogo do amor...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A morte do rouxinol

Assobiava, só

Quando uma lágrima…

Me interrompeu os lábios



Fico aqui, somente

Pensando,

Não no que foi,

Nem o que é

Mas…

O que não poderá ser…



Calou-se a melodia,

Que trazia no sopro

Estou… então, calado



Amanha, o dia será outro…

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Confissão da Lua

Na treva arcaica do médio tempo
Nocturno…

Em que a divindade se manifesta
No homem, na sua triste condição…

Subsiste um exíguo deus pagão
Que talha com sortilégios de luz
No olhar do ser singelo, tirania
A ambição…

A soberba soberania…

Sob o clarão nocturno e esférico
D’um astro fadado ao perpetuo ciclo
Carregado do desejo oculto, amante
Fixam-se, mutuamente, bocas sedentas
Do tacto ardente, do afecto quente
Na paixão… que mente…

Na completa loucura…

Incendeia-se o querer, mais que tudo
O grito torna-se mudo, olhar, ver, tudo!
…

Nada…
…

Carvão escravo da mão insana
Pinta, pinta… pinta, PINTA!!!

Risca-me essa parede banhada da claridade
Que se apague o alvo tom da mocidade
Pois apenas sonhei ter sonhado com ela
Nos meus braços… toda… ela…
E afinal, nem a tive, nem a perdi
Foi apenas um vulto, nem sei, se senti…

Era a Lua, na minha parede… era! ERA!
Que eu queria escrever, com meus dedos
Toda ela! Essa lua branca, como a pele
DELA!

…

Mas…
Só queria…
Confessar, baixinho… meus tristes medos…

Acabei então… aqui, caído neste chão…

Com os moveis, a serem como penedos…

Esperando que a Lua morra,
Para que possa dormir, aqui
Neste quarto sem cortinas…
Onde espero, sentado, por ti…

sábado, 31 de outubro de 2009

Neo Morpho Génesis

Um inicio pérfido da afinidade factual
Contígua informação que não se incorpora
E uma mente em constante negação
À realidade que se funde com o sonho
Sobre a determinação mais marcada

Abandona-se a divina quimera…

Nasce então o pragmatismo desistente
Sob a tutela de uma vida contundente
Morre a esperança, a convicção, a mente

Dizendo, “quem, a mim dera”…

Reformulando o teorema, a arcada
Restaurando o fulcro, talvez, suponho
Coloco pedras angulares em admiração
Para que passe sob o olhar, que chora
O conhecimento, da condição, actual

E o ser renasce… intelectual, espiritualmente
Reedificando-se, constante, permanentemente
Para que sobreviva, pelo menos, parcialmente
O pequeno pedaço, que nos deu vida, a mente!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Os mistérios da vendeta cósmica

Todo o acto se encontra com contradição
Entrelaçada sobre as vinhas da raiva
Flores de sangue, reflectida a gloria
Nasce ódio sobre a mais pura razão

Tomada por vitória, cruel e fria devastação
Negras velas do barco, carregadas de injuria
Afunda-se então, esperança, a compreensão…
Resta apenas, fumo, filosofia, planos, fúria!

E de gerações em comunhão, ódio fraterno
Crescem raízes sobre os dedos e o escrínio
Matura ódio e planos sobre o fatal desígnio
Guardados nos segredos da dor, do eterno

Chega então o fadado instante, da restituição
Justiça poética levada a cargo por Nemesis
Desconhecida figura, da morte encarnação
Que faz olhar no espelho da vaidade, sublime
O tolo que se perde dentro do próprio olhar

Que queime a vista, para não mais contemplar

E que jamais encontre paz, sobre seu crime…

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A pancada que me deu

Recebi uma pancada
Tão forte, tão profunda, potente!
Que da pancada que levei
Fiquei com uma pancada persistente

É minha, esta pancada e só minha
Única, singular, intransmissível
Impossível de ser copiada
Não, nem por outra pancada
Por parecida que seja, a pancadinha

E não foi algo às três pancadas
A pancada que sobre mim se abateu
Foi só uma, como se de água fosse
Que de pancada caiu todo o céu

E que pancada foi essa…
Unida num tecido sem fim, o eu…
Toda a luz, se apagou no infortúnio…
Tudo a pancada varreu…

De tão forte a bordoada
Que teu coração deu no meu
Hoje tenho uma pancada…
É simplesmente…
Algo que carrego… que me deu…

segunda-feira, 7 de setembro de 2009





Já disponivel ao publico, finalmente, Obscuramente.

Neste Link:
http://www.corposeditora.com/site/mostra_obra.asp?idcoleccao=29&idobra=497


Obrigado a quem acreditou que era possivel.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Sem fuga

Planos desesperados são o recurso do limite
Encontrando-me no limiar do sono profundo
Noutro mundo, segundo considerações que dite
Digo, não por dizer, não, não neste mundo

Saltar então, para a morte ou ficar, morrer
Sobre o meu próprio pé, rezando, sem fé

Sentir que a vida escorrer entre os dedos
Com ou sem visões de uma existência, feliz
Quem o diz?

O vento leva-me contrariado…

Nas pontas dos dedos
Em bicos de pés
Perco equilíbrio
Caio…

Não vejo o fundo, colorido ou pintado!
Apenas sigo o vento cortante do precipício
Escuridão adentro a toda a brida, hospício!

Abro os braços
Estico as pernas

Encaro o vazio
E acelero ainda mais

Na direcção vertical
Perco o medo

Cerro os olhos e
Perco-me na queda!
.…..
Acordo… apenas um sonho…

Apenas, SOS.


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Ciclo de poemas dedicados ao DPSM

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Obliterações mudas

Quando se tenta por fé ou vontade
Destruir à menor réstia todo o passado
Seja por meio de memória, papel queimado
Ou cabalmente, por promessa de saudade

Escutar as direcções de um futuro, oculto

Encontro nos métodos do cerrado silêncio
O conforto da retórica plana, dura e insípida
A cortesia é arma para a lacuna de sentimento
Mas se o faço, desejo evitar, a verdade despida

Factos contundentes, sem fuga obvia

Corto então pedaços vivos do meu mero ego
Que escondo por entre os canaviais do rio
Detrás do rochedo, na água morta, no frio
Todos os momentos, da vergonha, se fui cego

Lamento apenas, não os poder dourar, aos pedaços

Para os poder dar, ou vender…